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Adultos que sofreram falta de afeto na infância tendem a ter traços de personalidade semelhantes.

Mulher sentada no sofá, segurando um peluche e uma mão no peito, com um caderno aberto e uma caneca de café na mesa.

Estão em todos os escritórios, todos os cafés, todos os grupos de família no chat. O colega que leva críticas como um murro no estômago. A amiga que se ri de tudo, mas fica calada quando há abraços. O/a companheiro/a que ama profundamente, mas paralisa quando estendes a mão para lhe pegar.

Alguns adultos carregam uma infância invisível consigo - uma em que o carinho era raro, desajeitado ou completamente ausente.

No papel, funcionam. Trabalham, pagam contas, fazem piadas. Por dentro, é muito menos arrumado.

Os corpos encolhem perante a suavidade, as mentes vasculham cada silêncio à procura de perigo, e o amor pode parecer uma língua estrangeira aprendida tarde demais.

À primeira vista, nunca adivinharias.

Depois, uma coisa minúscula estala à superfície.

Crianças silenciosas, adultos ruidosos: o guião escondido da falta de carinho

Em consultórios de terapia e cozinhas à meia-noite, a mesma história volta em palavras diferentes.

Adultos que cresceram com pouco carinho atravessam a vida como se estivessem sempre meio preparados para o impacto.

Podem parecer independentes, “de baixa manutenção”, até orgulhosos por não precisarem de ninguém.

Por dentro, há geralmente uma negociação constante: Até que ponto me posso aproximar antes de doer?

O carinho não estava apenas em falta; era confuso.

Um pai ou mãe que nunca abraçava. Um cuidador que só mostrava calor quando as notas eram perfeitas.

Assim, o cérebro aprendeu um atalho brutal: proximidade = risco.

E esse atalho não desaparece aos 18.

Pega na Mia, 34 anos, bem-sucedida numa profissão criativa, a amiga a quem toda a gente liga numa crise.

Ela ouve, aparece com comida, lembra-se dos aniversários.

Quando alguém tenta fazer o mesmo por ela, brinca a meio: “Não, não, estou bem, não faças caso.”

Em criança, a mãe estava “ocupada a sobreviver”, os abraços eram raros, e as lágrimas eram “para o teu quarto”.

As estatísticas confirmam histórias como a dela: estudos sobre experiências adversas na infância mostram que a negligência emocional pode moldar fortemente os padrões de vinculação na idade adulta, a saúde e a autoestima.

A Mia não é “fria”.

O sistema nervoso dela está simplesmente programado para tratar a ternura como território suspeito.

Logicamente, faz sentido.

Uma criança depende dos adultos não só para comida e segurança, mas para microdoses de carinho que dizem, sem palavras: “Tu importas. Tens lugar aqui.”

Quando isso falta, o cérebro não fica neutro.

Reescreve as regras em silêncio: se o amor não vem, talvez não o mereças.

Se o conforto nunca aparece, talvez não devas precisar dele.

Em adulto, isto pode parecer autocrítica crónica, uma força implacável para provar valor, ou incapacidade de relaxar nas relações.

Estas características não são defeitos aleatórios.

São estratégias antigas de sobrevivência, a correr em hardware novo.

Traços comuns: como a falta de carinho na infância aparece anos depois

Um traço surge vezes sem conta: hiperindependência.

As pessoas que viveram sem carinho muitas vezes não “se apoiam” nos outros - quase recusam fazê-lo.

Preferem esgotar-se em silêncio a enviar uma mensagem do tipo “podes ajudar-me?”.

Não é orgulho no sentido habitual.

É memória muscular.

Precisar de menos parecia mais seguro, por isso treinaram-se a precisar de quase nada.

À superfície, parecem resilientes e duras.

Por dentro, vivem com uma solidão pequena e teimosa que nenhuma promoção ou conquista parece tocar.

Depois há confusão emocional.

Se cresceste sem abraços, palavras tranquilizadoras ou validação gentil, as emoções podem parecer mau tempo - algo que se espera que passe, não algo que se explora.

Vês isto no/a parceiro/a que fica em branco durante discussões, ou no amigo que muda de assunto sempre que o ambiente pesa.

Um homem descreveu assim: “Quando a minha mulher chora, é como se alguém mudasse a língua a meio da conversa. Eu desligo.”

Ao nível do cérebro, isto faz sentido; ninguém lhe mostrou como ficar presente perante as lágrimas.

Por isso, a distância tornou-se a única ferramenta.

O custo é que muitas vezes sente que está a ver a própria vida através de um vidro.

O controlo é outro traço comum.

Adultos que tiveram pouco carinho frequentemente anseiam por controlar horários, conversas, até o tom emocional de uma sala.

Não porque queiram poder, mas porque a imprevisibilidade em tempos significou dor emocional.

Se nunca sabias quando um pai ou mãe ia explodir ou retirar-se, monitorizar tudo torna-se segunda natureza.

Isto pode aparecer como perfeccionismo no trabalho, planear cada minuto das férias, ou entrar em pânico quando alguém se atrasa.

A lógica é simples: se eu controlar variáveis suficientes, talvez nada volte a doer assim.

Claro que a vida recusa ser totalmente controlada - o que deixa estes adultos a sobrecarregar constantemente um motor que foi construído para sobreviver, não para estar em paz.

Do modo de sobrevivência ao amolecer: pequenos passos que mudam tudo

Não há um interruptor mágico, mas há um ponto de partida: nomear o que aconteceu.

Não de forma dramática, apenas de forma clara.

Dizer a ti próprio/a: “Eu não recebi muito carinho em criança, e isso afetou-me” pode parecer estranhamente radical.

O passo seguinte são micro-experiências de segurança.

Uma prática que alguns terapeutas sugerem: ligações de três segundos.

Três segundos de contacto visual.

Três segundos a deixar um abraço “assentar” antes de te afastares.

Três segundos a não pedir desculpa quando expressas uma necessidade.

Soam ridiculamente pequenos.

Para um sistema nervoso treinado para fugir da proximidade, são enormes.

Outro movimento poderoso: aprender a dar a ti próprio/a aquilo que te faltou em criança, de formas embaraçosamente simples.

Falar contigo com gentileza em voz alta na cozinha.

Comprar uma manta macia porque o teu eu mais novo nunca teve esse tipo de conforto.

Dizer a um amigo de confiança: “Estou a aprender a pedir tranquilização, por isso posso ser um bocado desajeitado/a.”

Num dia mau, isto pode parecer forçado, até piroso.

Sejamos honestos: ninguém faz isto todos os dias.

Ainda assim, ao longo de meses, estes pequenos gestos podem enviar uma mensagem diferente ao corpo: o calor humano não é uma armadilha; é permitido.

As pessoas muitas vezes acham que têm de resolver tudo sozinhas.

Essa é outra regra antiga de uma infância faminta de toque.

Ter linguagem partilhada ajuda a afrouxá-la.

“Curar-se da negligência emocional não é culpar os teus pais para sempre. É finalmente dares a ti próprio/a a ternura que o teu eu mais novo nunca teve poder para exigir.”

Para alguns, essa ternura começa na terapia.

Para outros, começa nas amizades, ou num momento silencioso depois de ler uma frase que bate perto demais.

Para manter isto concreto, alguns pontos de ancoragem simples ajudam quando tudo parece nebuloso:

  • Repara num momento por dia em que te sentes, de facto, ligeiramente seguro/a.
  • Pratica dizer “Eu sinto…” em vez de “Está tudo bem.”
  • Permite que uma pessoa te veja quando não estás a “representar”.

Viver com uma ferida antiga numa vida nova

Alguns adultos percebem tarde - nos 30, 40, 60 - que aquilo a que chamavam “ser de baixa manutenção” era muitas vezes apenas estar emocionalmente subnutrido/a.

Essa perceção pode doer.

Também pode ser estranhamente libertadora.

De repente, não és “demasiado sensível” nem “mau/má em relações”; és alguém que cresceu sem um mapa para a ternura, a fazer o melhor possível com o que havia.

Nessa perspetiva, os traços comuns deixam de parecer falhas pessoais.

Parecem prova de que te adaptaste - mesmo que agora a adaptação pareça apertada demais.

Quando começas a falar disto com outras pessoas, acontece algo surpreendente.

As histórias ecoam.

A amiga que nunca gostou de abraços admite que, secretamente, os queria; só não sabia como os receber.

O primo que faz sempre piadas sobre estar “morto por dentro” confessa que chora no carro e depois limpa a cara antes de chegar a casa.

Numa noite calma, um pai ou mãe pode até dizer: “Também ninguém me abraçou. Eu não sabia como.”

Raramente temos uma resolução cinematográfica e arrumadinha.

O que temos é um pouco mais de honestidade e um pouco menos de fingimento.

Num comboio cheio ou a fazer scroll num feed, nunca conseguirias distinguir quem cresceu com carinho e quem não cresceu.

A ferida é, na maior parte, invisível.

O que pode mudar tudo é a escolha de deixar de tratar essa ferida como uma vergonha privada e começar a tratá-la como contexto.

Não como desculpa para magoar os outros, mas como razão para seres mais gentil contigo.

Todos andamos com versões mais novas de nós ainda na sala, ainda à espera que alguém repare.

Às vezes, a pessoa por quem estiveram à espera és, finalmente, tu.

Ponto-chave Detalhe Interesse para o/a leitor/a
A hiperindependência não é um “superpoder” Muitas vezes, é uma resposta à falta de carinho precoce que tornou a vulnerabilidade perigosa. Ajuda a perceber por que razão pedir ajuda parece tão difícil, mesmo quando é necessária.
As pequenas experiências de segurança contam Três segundos de ligação, um gesto de carinho consigo, uma frase honesta podem reprogramar a forma como se vive a intimidade. Oferece ações concretas e acessíveis, mesmo a quem se sente desajeitado/a ou desconfiado/a.
Nomear a falta já muda a história Reconhecer a falta de carinho permite sair da culpa e da vergonha e abrir espaço para reparação. Dá um novo olhar sobre o passado, menos acusatório e mais orientado para a cura.

FAQ

  • Como sei se realmente me faltou carinho ou se só me lembro assim? As memórias podem ser difusas, mas os padrões ajudam: se o calor, o conforto e o carinho físico ou verbal pareciam raros, condicionais ou desconfortáveis em casa, o teu corpo provavelmente adaptou-se a essa escassez, mesmo que tenham existido alguns bons momentos.
  • Adultos a quem faltou carinho podem alguma vez sentir-se “normais” nas relações? Muitos conseguem. Normalmente exige consciência, paciência e experiências repetidas de ligação segura, por vezes com apoio de terapia ou de amizades muito estáveis.
  • Evitar abraços ou toque é sempre sinal de negligência emocional na infância? Nem sempre. A cultura, a neurodivergência, o trauma e a preferência pessoal também contam. O essencial é saber se o toque desencadeia medo, vergonha ou confusão, em vez de ser apenas uma preferência.
  • Como posso apoiar um/a parceiro/a que tem dificuldade com carinho? Falem abertamente, avancem devagar e perguntem o que é seguro em vez de adivinhar. Respeita os limites, ao mesmo tempo que convidas, com delicadeza, a pequenas experiências de proximidade - sem pressão nem culpa.
  • Devo confrontar os meus pais sobre o carinho que não recebi? Depende da segurança, do timing e do que esperas conseguir. Algumas pessoas encontram cura ao nomear isso; outras curam-se mais ao focarem-se na vida presente. Não há uma única decisão “certa”.

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