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Fim do dístico verde: novo documento obrigatório em fiscalizações rodoviárias a partir de 2025.

Polícia verifica documentos de condutor num carro parado, com motocicleta policial ao fundo numa estrada.

Aquele pequeno quadrado no para-brisas costumava decidir o seu destino durante as operações de trânsito.

Em 2025, essa era termina mesmo.

Os condutores franceses vivem agora num mundo sem o tradicional dístico verde do seguro, mas os controlos policiais não desapareceram. À medida que a era do papel se desvanece, um novo conjunto de regras, bases de dados e documentos está, discretamente, a redefinir a forma como os automobilistas provam que estão segurados na estrada.

O dístico verde desapareceu, mas os controlos não

Desde 1 de abril de 2024, os automobilistas em França deixaram de ter de colar no para-brisas a conhecida vinheta verde do seguro, ou de guardar o respetivo “cartão verde” no porta-luvas. Até 31 de março de 2024, esse pequeno retângulo e o seu destacável funcionavam como prova oficial do seguro durante fiscalizações na estrada. Agora, o sistema assenta noutro pilar.

As autoridades passaram a apostar na verificação digital. Em vez de pedirem um cartão físico, a polícia e a gendarmaria consultam uma base de dados eletrónica para confirmar se um veículo está segurado. O objetivo é simples: reduzir burocracia, diminuir a fraude e facilitar ligeiramente a vida a seguradoras e condutores.

Desde 2024, a prova oficial do seguro deixa de ser um cartão em papel e passa a ser a sua presença numa base de dados nacional.

Esta mudança pode parecer pequena por fora, mas toca num tema muito sensível. O seguro automóvel continua a ser obrigatório em França. Não haver um dístico no vidro não significa ausência de risco. Os controlos mantêm-se, as sanções também, e a fase de transição pode ser complicada para quem mudou de seguradora recentemente.

Como funciona, na prática, o novo sistema francês

A pedra angular desta reforma é o Fichier des Véhicules Assurés (FVA), a base de dados nacional de veículos segurados. Todas as seguradoras autorizadas em França têm de a atualizar. Cada matrícula fica associada a uma apólice em vigor, com informações básicas como as datas de validade.

Durante uma paragem na estrada, os agentes já não se baseiam primeiro no que o condutor lhes mostra. Consultam a matrícula no FVA para ver se o veículo está segurado naquele momento. Se a matrícula constar do registo e o contrato estiver ativo, a parte do seguro fica, normalmente, resolvida.

Nos controlos de rotina, é agora o FVA que “fala” em vez do dístico no para-brisas. Se a sua matrícula estiver no ficheiro, presume-se que está segurado.

Esta viragem digital pretende resolver vários problemas recorrentes:

  • Condutores que mantinham um cartão verde antigo depois de cancelarem o contrato.
  • Autocolantes falsos ou falsificados, impressos em casa ou comprados online.
  • Atrasos e erros ligados ao envio anual de documentos em papel.

Para a maioria dos contratos antigos, o sistema funciona sem sobressaltos. A seguradora envia os dados, o FVA atualiza e a polícia vê a informação em tempo real durante os controlos. A tensão surge sobretudo nos primeiros dias de uma nova apólice.

O “ponto cego” de 72 horas após contratar uma nova apólice

Quando muda de seguradora ou subscreve um contrato novo, a sua apólice nem sempre aparece imediatamente no FVA. A atualização pode demorar até 72 horas. Fins de semana e feriados podem alongar ainda mais o prazo, se a validação ocorrer numa sexta-feira ao fim do dia.

Esse período é o principal ponto fraco do novo sistema. Está oficialmente segurado desde a data de início do contrato, mas a base de dados da polícia pode ainda não refletir isso. Nessa janela curta, uma simples operação stop pode tornar-se numa troca desconfortável se não tiver nenhum documento consigo.

Para cobrir este intervalo, as seguradoras têm agora de fornecer um documento específico no momento da subscrição. Este papel resume os elementos essenciais do contrato e funciona como prova temporária de seguro enquanto o FVA não é atualizado.

O novo documento que deve conseguir apresentar

Este papel não é o antigo cartão verde, mas cumpre um papel semelhante durante um curto período após celebrar ou alterar significativamente a apólice. Normalmente cabe numa única página e inclui várias informações obrigatórias, nomeadamente:

Informação O que consta no documento
Seguradora Nome e morada da seguradora
Tomador do seguro Nome, apelido(s) e morada postal
Número da apólice Referência única do contrato
Data de emissão Quando o documento foi produzido
Início da cobertura Data efetiva da garantia do seguro
Dados do veículo Matrícula, marca e modelo do automóvel

Uma frase tem um papel crucial. O documento deve incluir uma menção legal clara, como:

“Este documento constitui uma presunção de seguro durante os 15 dias seguintes à data de início de eficácia da apólice.”

Essa linha faz a diferença durante as fiscalizações. Indica ao agente que a seguradora acabou de iniciar ou modificar a cobertura e que o FVA pode ainda não refletir a atualização. O papel funciona como ponte entre o contrato e a base de dados.

Porque não deve perder este papel único

Ao contrário do antigo dístico verde, este novo documento não é renovado anualmente. A seguradora, em regra, emite-o uma única vez, na criação do contrato. Só deverá receber um duplicado em caso de perda ou erro. Muitos condutores deitam-no fora quando o FVA já foi atualizado, o que pode ser um erro se surgirem dúvidas posteriores sobre os primeiros dias de cobertura.

Guardar uma cópia, física ou digital, pode ajudar a resolver litígios, sobretudo após um acidente ocorrido pouco depois da data de início da apólice. Prova exatamente quando a seguradora aceitou cobrir o veículo e sob que número de apólice.

No dia a dia, a maioria dos condutores raramente terá de o apresentar. Ainda assim, nas primeiras duas semanas - sobretudo se fizer longas distâncias, cruzar fronteiras ou usar autoestradas com controlos automáticos - reduz o risco de mal-entendidos com as autoridades.

O que acontece se não conseguir provar que está segurado?

Se a polícia consultar o FVA e não encontrar o seu veículo, pedirá um comprovativo. Pode ser este documento único ou outra prova válida do contrato emitida pela sua seguradora.

Sem qualquer prova, a situação torna-se rapidamente dispendiosa. A coima padrão por conduzir sem prova de seguro pode chegar aos 500 euros. Se não regularizar a situação no prazo de 45 dias, o total pode subir para 1.000 euros, sem contar com eventual imobilização do veículo ou processos judiciais por condução sem seguro.

Não constar no FVA e não conseguir apresentar prova de cobertura pode duplicar a penalização financeira em menos de dois meses.

Alguns condutores assumem que um recibo de pagamento ou uma troca de e-mails basta. Na prática, os agentes tendem a focar-se em documentos formais que indiquem claramente a data de início da garantia e identifiquem o veículo. Qualquer ambiguidade pode levar a verificações prolongadas ou a uma coima provisória.

Dicas práticas para condutores em França em 2025

Para residentes, trabalhadores transfronteiriços e turistas que usem veículos com matrícula francesa, alguns hábitos passam a fazer sentido:

  • Guarde o documento único do seguro no carro pelo menos durante os primeiros 15 dias.
  • Tenha uma cópia digitalizada no telemóvel ou em armazenamento na cloud, caso o papel se perca.
  • Ao mudar de seguradora, evite viagens longas nos primeiros dias sem esse documento.
  • Confirme que a matrícula está corretamente escrita em toda a documentação do seguro.

Os automóveis com matrícula estrangeira seguem regras diferentes, geralmente baseadas no clássico cartão internacional de seguro. Mas assim que um veículo tem matrícula francesa, entra no sistema FVA e aplica-se a política de “sem dístico”, mesmo para condutores que dividem o tempo entre vários países.

Porque é que a França passou para uma base de dados - e o que outros países podem aprender

O fim do dístico verde encaixa numa tendência europeia mais ampla de desmaterialização de documentos e registos centralizados. O Reino Unido, por exemplo, usa o Motor Insurance Database, a que a polícia acede através de reconhecimento de matrículas. Vários Estados da UE têm sistemas semelhantes para impostos e seguros.

Estas bases de dados permitem controlos automáticos por câmaras, campanhas direcionadas contra veículos sem seguro e melhor coordenação entre seguradoras e autoridades. Também reduzem o custo ambiental de imprimir e enviar milhões de cartões plastificados e autocolantes todos os anos.

Para países que ainda dependem muito de documentos físicos no tablier, o caso francês oferece um cenário concreto: necessidade de um ficheiro nacional fiável, regras claras para curtos períodos de transição e um papel temporário que faça a ponte para contratos recentes.

Olhando em frente: precisão dos dados, risco e pequenas vantagens

Uma questão fica muitas vezes em segundo plano: o que acontece quando a base de dados está errada? Um erro de digitação na matrícula, um atraso no cancelamento de uma apólice ou uma falha técnica podem gerar falsos negativos. Nestes casos, o documento único e outros certificados da seguradora tornam-se a sua linha de defesa durante uma inspeção.

Para condutores que gerem o seguro com rigor, o novo sistema traz algumas vantagens. Acabam-se as multas por ter deixado o cartão verde em casa. Acaba-se a frustração quando o autocolante descola num dia de calor. E há menos oportunidades para burlões imitarem documentos oficiais com impressoras baratas.

Ao mesmo tempo, a mudança levanta questões mais amplas sobre a fiabilidade dos dados e a conservação a longo prazo da informação de seguros. Para quem depende do carro para trabalhar, compreender como o FVA funciona e saber que documento apresentar quando o ficheiro ainda não foi atualizado passa a fazer parte da literacia rodoviária básica em França.

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