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Nem nadar, nem caminhar: especialistas recomendam agora outra atividade como a mais benéfica para maiores de 60 anos.

Idosos fazendo exercícios de yoga numa sala com janelas grandes e plantas. Todos usam roupa desportiva e seguem a instrutora.

Todos os dias úteis, às 9h, um pequeno grupo de principiantes de cabelos grisalhos reúne-se numa sala tranquila.

Não há pista, não há piscina - e, ainda assim, os médicos dizem que são alguns dos seus doentes mais saudáveis.

A música começa, as cadeiras deslizam para trás, os tapetes desenrolam-se. Os movimentos mantêm-se lentos e quase tímidos ao início. Ouvem-se pequenos gemidos, algumas gargalhadas quando alguém perde o equilíbrio, e um lembrete constante da instrutora para respirar. Nada aqui parece o “desporto” clássico, mas, para muitas pessoas com mais de 60 anos, este tipo de sessão está, silenciosamente, a reescrever como pode ser o envelhecimento.

A atividade que trabalha de dentro para fora

Durante décadas, as campanhas de saúde pública repetiram o mesmo trio para pessoas idosas: caminhar, nadar, andar de bicicleta. Estes pilares continuam a ser importantes. Protegem o coração, mantêm as articulações em movimento, ancoram uma rotina. No entanto, especialistas em geriatria destacam agora uma categoria diferente de movimento como a mais benéfica após os 60: práticas lentas e conscientes, como tai chi, qi gong, ioga suave, ioga em cadeira, Pilates suave e ginástica postural.

Estas atividades “internas” trabalham o equilíbrio, a postura, a respiração e a coordenação de uma só vez, em vez de se limitarem a perseguir passos ou distância.

Em vez de exigirem velocidade ou suor, pedem atenção. O objetivo é ensinar o corpo a voltar a mover-se como um sistema ligado: pés a “falarem” com joelhos, joelhos com ancas, coluna com respiração, respiração com cérebro. Muitos clínicos descrevem-nas como uma espécie de “multivitamínico do movimento” para adultos mais velhos: não é chamativo, mas é abrangente, cumulativo e surpreendentemente poderoso.

A investigação confirma isto. Estudos sobre tai chi, por exemplo, mostram uma redução clara de quedas em pessoas com mais de 60 anos, acompanhada de músculos das pernas mais fortes, maior confiança ao caminhar e menos idas ao hospital relacionadas com problemas de equilíbrio. Trabalhos semelhantes sobre programas de equilíbrio baseados em ioga relatam melhorias na velocidade de marcha, no medo de cair e na qualidade do sono.

Porque caminhar e nadar nem sempre chegam

A caminhada rápida treina sobretudo o sistema cardiovascular e a resistência das pernas. A natação fortalece os músculos e reduz a pressão sobre articulações dolorosas. Ambos são valiosos, mas apenas abordam parcialmente duas grandes ameaças à independência depois dos 60: a perda de equilíbrio e a perda de consciência corporal.

As práticas lentas e controladas vão diretamente a esses pontos fracos. Desafiam pequenos músculos estabilizadores à volta dos tornozelos, ancas e coluna. Ensinam os olhos, o ouvido interno e os músculos a cooperarem novamente, para que o corpo saiba exatamente onde está no espaço. Mantêm também o cérebro ativo, pedindo-lhe que memorize sequências, coordene os dois lados do corpo e se ajuste a microcorreções constantes.

Um único passo em falso num passeio pode significar uma fratura da anca. Treinar o equilíbrio e o tempo de reação reduz esse risco mais do que mais mil passos por dia.

Os neurologistas prestam agora muita atenção a esta ligação entre movimento consciente e envelhecimento cerebral. Aprender novas coreografias, transferir o peso lentamente, sincronizar o movimento com a respiração - tudo isto estimula redes envolvidas na atenção, no planeamento e na memória. Em alguns adultos mais velhos com alterações cognitivas ligeiras, estas sessões parecem abrandar a passagem de pequenos esquecimentos para um declínio mais sério.

Como é, na prática, uma sessão de “movimento lento”

Esqueça a imagem de influencers de ioga hiperflexíveis. As aulas pensadas para maiores de 60 anos são diferentes - e devem ser. A música é suave, as transições são generosas, e as posturas adaptam-se a cada corpo, e não o contrário.

  • Tai chi / qi gong: sequências em pé, com movimentos fluidos e circulares, muitas vezes com transferência de peso de uma perna para a outra, com respiração contínua.
  • Ioga suave ou em cadeira: posturas feitas numa cadeira ou usando-a como apoio, com foco na mobilidade da coluna, ancas e ombros.
  • Pilates suave: movimentos pequenos e precisos para fortalecer o core, muitas vezes deitado(a) ou sentado(a), usando almofadas ou bandas elásticas.
  • Ginástica postural: exercícios simples para alinhar a coluna, abrir o peito e reeducar os pés e as ancas.

Em muitos centros de reabilitação, os terapeutas oferecem agora mini-sessões de 20 a 30 minutos com apenas dois ou três movimentos. A repetição é mais importante do que a variedade. A tarefa é fazer menos, mas fazê-lo com atenção: peso distribuído por todo o pé, ombros relaxados, mandíbula solta, respiração lenta.

Quando os doentes repetem apenas um punhado de movimentos bem escolhidos durante seis semanas, muitos referem subir escadas com mais facilidade, menos rigidez depois de estar sentado(a) e um humor mais calmo à noite.

Os médicos notam efeitos secundários: marcha mais confiante, menos “quase-quedas” em casa, melhor apetite e até maior interação social. Quando as pessoas voltam a confiar no seu corpo, tendem a sair mais, visitar amigos e manter os seus passatempos.

Como começar depois dos 60 com zero flexibilidade

A maioria dos especialistas concorda num ponto: não é preciso estar em forma ou ser flexível para começar. Aliás, quem se sente desajeitado(a) ou frágil é muitas vezes quem mais beneficia. O objetivo não é a performance, mas a prática regular.

Uma estrutura semanal simples

Dia Sugestão
Segunda-feira 10–15 minutos de ioga em cadeira ou exercícios de mobilidade sentado(a).
Quarta-feira 20 minutos de tai chi para principiantes ou exercícios de equilíbrio com apoio.
Sexta-feira Sessão curta de respiração + 10 minutos de trabalho suave de core.

Só isto já cria mudanças significativas, sobretudo para quem antes era sedentário(a). Quem já caminha ou nada pode simplesmente acrescentar uma ou duas sessões de movimento lento às atividades habituais, em vez de as substituir.

Pense em caminhar e nadar como o “motor” e nestas práticas mais lentas como a “direção e suspensão” que mantêm o veículo seguro.

Dicas práticas antes da primeira aula

  • Procure sessões específicas para seniores: centros comunitários, clínicas de fisioterapia, igrejas e autarquias organizam frequentemente aulas adaptadas com rótulos como “maiores de 60”, “prevenção de quedas” ou “equilíbrio e postura”.
  • Verifique a formação do(a) instrutor(a): pergunte se tem preparação para trabalhar com adultos mais velhos ou com pessoas com doenças crónicas.
  • Comece com uma cadeira por perto: mesmo que não precise, ter um apoio estável reduz a ansiedade e incentiva a experimentar novas posições.
  • Use a dor como informação, não como desafio: algum desconforto ligeiro pode acontecer; dor aguda significa que o movimento deve ser alterado ou interrompido.

O que acontece dentro do corpo quando se move devagar

O movimento lento não é “mais fácil”; é apenas diferente. Os músculos ativam-se de forma mais controlada. Estabilizadores profundos junto à coluna e à bacia voltam a trabalhar, em vez de deixar que os grandes músculos superficiais façam tudo. Isto reduz a sobrecarga nos joelhos, ancas e zona lombar.

A respiração também muda. Muitos adultos mais velhos respiram “alto”, no peito, sobretudo quando estão ansiosos ou com dor. Práticas como qi gong ou ioga treinam uma respiração mais baixa e ampla, que massaja suavemente os órgãos abdominais e pode apoiar a regulação da tensão arterial.

Quando a respiração abranda, a frequência cardíaca tende a acompanhar. A tensão arterial pode estabilizar e o sistema nervoso afasta-se do modo permanente de “alerta”.

As respostas hormonais também se ajustam. Atividade suave e regular ajuda a regular a glicemia, apoia a densidade óssea e pode aliviar certos tipos de dor crónica ao modular a forma como o cérebro interpreta sinais do corpo. Quem pratica regularmente diz muitas vezes que o corpo fica “menos ruidoso”: menos dores aleatórias, menos rigidez ao acordar, menos fadiga depois de uma caminhada curta.

Combinar práticas lentas com a vida do dia a dia

Uma grande vantagem destes métodos é a sua flexibilidade. Integram-se facilmente nas rotinas diárias, especialmente para quem cuida de um(a) companheiro(a), toma conta de netos ou simplesmente não gosta de ginásios.

  • Fique numa perna só enquanto lava os dentes, segurando no lavatório se necessário.
  • Faça rotações dos ombros e alongue a coluna sempre que a chaleira ferver.
  • Faça três movimentos lentos de sentar-e-levantar a partir de uma cadeira antes de ligar a televisão.
  • Faça dois minutos de respiração profunda antes de dormir, deitado(a) de costas ou de lado.

Estas pequenas doses de treino acumulam. Ao longo de semanas, reduzem a distância entre “tempo de exercício” e vida normal, o que ajuda o cérebro a manter as competências de equilíbrio e postura disponíveis em situações reais - como descer de um autocarro ou virar-se rapidamente para atender a porta.

Benefícios relacionados: humor, vida social e independência

Para lá dos músculos e das articulações, muitos adultos mais velhos relatam mudanças na forma como se sentem em relação a si próprios. Mover-se em grupo, mesmo em silêncio, traz de volta um sentido de pertença. As pessoas começam a reconhecer-se, a comparar progressos, a partilhar dicas para gerir dor ou melhorar o sono. Para alguns, esta aula semanal torna-se uma âncora no calendário, especialmente depois da reforma ou de um luto.

A autonomia aos 70 ou 80 raramente depende de correr maratonas. Muitas vezes depende da capacidade de se levantar com facilidade, virar sem cair e pensar com clareza.

O humor também muda. A combinação de esforço suave, respiração mais lenta e atenção focada pode reduzir sintomas de ansiedade ligeira e de humor em baixo. Não substitui tratamento médico quando necessário, mas dá a muitos adultos mais velhos uma ferramenta adicional que conseguem controlar por si, em casa, sem equipamento.

Em vários países, serviços de saúde estão agora a experimentar prescrever tai chi ou aulas focadas no equilíbrio para doentes com elevado risco de queda. Os primeiros resultados sugerem menos fraturas, internamentos mais curtos e, crucialmente, mais pessoas capazes de viver em casa em vez de em instituições.

Para quem já é ativo(a), acrescentar estas práticas pode funcionar como uma apólice de seguro. Um(a) nadador(a) regular que inclua duas sessões semanais de equilíbrio protege as articulações e o tempo de reação. Um(a) caminhante entusiasta que aprenda a estabilizar o core pode prevenir lesões por sobrecarga que por vezes obrigam a parar. O corpo raramente precisa de mais esforço aos 70; geralmente precisa de um treino mais inteligente e mais calmo, que respeite as suas novas regras.

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