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Nem xadrez nem palavras cruzadas: a melhor atividade para manter o cérebro ativo depois dos 60.

Duas pessoas jogam damas numa mesa de madeira, com chá e um relógio próximo.

Depois dos 60 anos, muitas pessoas preocupam-se com a memória, a concentração e a agilidade mental - mas o verdadeiro fator decisivo raramente é mencionado.

A reforma pode abrandar a correria do dia a dia, mas também pode, silenciosamente, abrandar o cérebro. As consultas médicas multiplicam-se, as rotinas tornam-se previsíveis e, por vezes, as conversas parecem mais difíceis de acompanhar. Um simples jogo de tabuleiro, muitas vezes esquecido no fundo de um armário, pode ser uma das formas mais fáceis de contrariar esse declínio.

O poder discreto de um tabuleiro

A atividade que mais tem surgido na investigação sobre envelhecimento, neste momento, não é o xadrez nem as palavras cruzadas, mas sim as damas. As regras mantêm-se simples, o que importa quando as pessoas se sentem intimidadas por jogos de estratégia demasiado complexos. Ainda assim, as exigências mentais continuam ricas: planeamento, atenção, reconhecimento de padrões e tomada rápida de decisões.

As damas combinam uma baixa barreira de entrada com um elevado envolvimento cognitivo - uma mistura rara para pessoas na casa dos 60, 70 anos e além.

Ao contrário de muitas aplicações de “treino cerebral” que parecem artificiais, as damas são familiares. As peças avançam, as damas deslocam-se na diagonal, armadilhas surgem com um único movimento descuidado. Em cada jogada, a pergunta é sempre a mesma: o que acontece se eu jogar aqui, e o que poderá o meu adversário fazer a seguir?

Esse vai-e-vem constante ativa vários processos cognitivos ao mesmo tempo: memória de trabalho, flexibilidade e controlo emocional quando o jogo dá uma volta inesperada. Para adultos mais velhos, esta combinação pode funcionar como uma sessão de ginásio para a mente, com menos frustração e mais risos.

O que a ciência diz sobre jogos e risco de demência

Vários estudos de grande escala sobre envelhecimento sugerem que atividades de lazer mentalmente estimulantes podem atrasar o declínio cognitivo. Um projeto de investigação publicado no New England Journal of Medicine acompanhou centenas de pessoas com mais de 75 anos que não apresentavam demência no início. Quem lia com regularidade, jogava jogos de tabuleiro como as damas, ou se envolvia noutros passatempos cognitivos, apresentou menor risco de desenvolver demência ao longo de cerca de cinco anos de acompanhamento.

Nesse estudo, cada aumento no nível de atividade cognitiva associou-se a uma redução de aproximadamente 7% no risco de demência ao longo do tempo.

O cérebro reage ao desafio de forma semelhante a um músculo que reage ao exercício. Quando as pessoas enfrentam repetidamente tarefas que exigem planeamento, memória e pensamento flexível, as redes neuronais mantêm-se mais ativas. Isso não “cura” nem previne por completo condições como a doença de Alzheimer, mas pode atrasar sintomas e ajudar as pessoas a funcionar melhor no quotidiano.

As damas encaixam bem neste quadro. As regras incentivam esforço mental repetido sem obrigar os jogadores a aprender aberturas complexas ou memorizar padrões obscuros. Um jogo de 15 minutos pode ser exequível para quem se cansa rapidamente, mas ainda assim fornecer estímulo significativo.

Como as damas treinam diferentes partes do cérebro

Memória sob pressão

Durante uma partida, os jogadores acompanham vários fluxos de informação: posições das peças, capturas possíveis, casas de risco e a direção geral do jogo. Recordar jogadas anteriores também ajuda, porque os padrões repetem-se e certas configurações tendem a favorecer um dos lados.

Essa evocação constante treina a memória de trabalho. O cérebro pratica manter informação por curtos períodos enquanto processa novas ameaças ou oportunidades no tabuleiro.

Atenção e flexibilidade mental

As damas castigam a distração. Um olhar para o telemóvel, um momento a divagar, e uma dama desaparece. Os jogadores têm de vigiar diagonais, antecipar capturas múltiplas e resistir a movimentos impulsivos.

Este tipo de atenção focada treina o cérebro a manter-se numa tarefa. Ao mesmo tempo, cada nova configuração obriga a adaptação rápida. Um jogador pode passar do ataque à defesa numa única jogada, ajustando planos em resposta a uma surpresa do adversário. Essa flexibilidade também apoia a vida diária, desde lidar com notícias inesperadas até alterar uma rotina familiar.

Lógica, estratégia e velocidade

Embora mais simples do que o xadrez, as damas continuam a exigir pensamento analítico. Bons jogadores perguntam a si próprios como poderá estar o tabuleiro daqui a três ou quatro jogadas. Ponderam compromissos: sacrificar uma peça para ganhar melhor posição, por exemplo, ou escolher segurança em vez de uma captura arriscada.

Com o tempo, esse hábito reforça o raciocínio lógico. Os jogadores começam a reconhecer formas recorrentes no tabuleiro, a sentir que certas margens são perigosas e a avaliar quando a agressividade compensa. O jogo rápido, sobretudo em partidas curtas com família ou amigos, também incentiva a velocidade de decisão. Isso pode ser relevante quando pessoas mais velhas precisam de reagir depressa ao conduzir, ao subir escadas ou ao lidar com situações sociais.

Ganhos emocionais e sociais que muitas vezes passam despercebidos

Os benefícios das damas vão além da cognição. Uma noite de jogo regular dá estrutura à semana, cria pequenos rituais e incentiva as pessoas a sair de casa - ou, pelo menos, a pôr a mesa para jogar.

Para muitos adultos mais velhos, uma sessão semanal de damas torna-se menos sobre ganhar e mais sobre pertencer.

O jogo cara a cara traz conversa de forma natural. Entre jogadas, trocam-se histórias, perguntam-se coisas sobre consultas médicas, partilham-se piadas sobre estratégias ousadas ou desastradas. Estas interações curtas podem atenuar a solidão, que muitas vezes aumenta após a reforma, um luto ou uma mudança para longe de vizinhos antigos.

Ganhar uma partida de vez em quando também alimenta a autoestima. Muitos reformados sentem que as suas competências já não contam num mundo impulsionado por trabalhadores mais jovens e pela tecnologia. Manobrar melhor do que um adversário atento, ou segurar um empate numa posição difícil, dá uma pequena mas significativa sensação de conquista.

Como trazer as damas para o quotidiano depois dos 60

Criar um hábito de damas não exige grandes investimentos. Um tabuleiro simples costuma custar menos do que uma refeição de take-away, e existem versões digitais em tablets e telemóveis. A chave está em transformar o jogo ocasional num ritmo constante.

  • Comece com um ou dois jogos curtos por semana, com cerca de 15–20 minutos cada.
  • Jogue com família, vizinhos ou num centro comunitário local.
  • Use um tabuleiro físico sempre que possível, para também envolver o tato e capacidades espaciais.
  • Quando as regras já parecerem fáceis, adicione limites de tempo leves para aumentar a agilidade mental.
  • Experimente adversários online se não houver ninguém por perto que queira jogar com regularidade.

Quem se sente menos confiante pode começar com jogos “cooperativos”, sentando-se do mesmo lado com um amigo e discutindo cada jogada em conjunto. Isso reduz a pressão do desempenho e desloca o foco para a conversa e a resolução conjunta de problemas.

Como as damas se comparam a outras atividades amigas do cérebro

Atividade Principais benefícios Nível de dificuldade
Damas Planeamento, atenção, contacto social, rapidez de decisão Fácil de aprender
Xadrez Estratégia complexa, memória, reconhecimento de padrões Curva de aprendizagem mais elevada
Palavras cruzadas Linguagem, vocabulário, recordação de factos Depende do nível de escolaridade
Leitura Compreensão, imaginação, regulação emocional Varia conforme o género
Jogos de cartas (bridge, whist) Memória, cálculo, interação social Regras podem ser complexas

As damas ocupam um ponto ideal. Exigem mais do que um passatempo leve, mas menos do que uma maratona de estratégia. Para muitas pessoas na casa dos 60 e 70, esse equilíbrio torna a prática regular mais realista.

Combinar as damas com hábitos físicos e de estilo de vida

A saúde cerebral depois dos 60 raramente depende de uma única atividade. A investigação aponta repetidamente para uma combinação de fatores: movimento, qualidade do sono, alimentação, contacto social e desafio cognitivo. As damas podem encaixar-se de forma natural nessa mistura.

Um dia típico pode incluir uma caminhada vigorosa de manhã, exercícios leves de força ou alongamentos, refeições equilibradas e uma sessão de damas ao fim da tarde ou início da noite. Esta estrutura simples favorece o fluxo sanguíneo para o cérebro, estabiliza o humor e fornece desafio mental sem sobrecarregar o corpo.

Pessoas com queixas de memória iniciais também podem usar as damas para acompanhar mudanças. Ter dificuldade em seguir regras que antes pareciam fáceis, ou perder frequentemente a noção de quem é a vez, pode ser um sinal para procurar avaliação médica. Nesse sentido, o jogo funciona também como um controlo informal e suave da função cognitiva.

Para além do tabuleiro: atividades relacionadas que apoiam cérebros em envelhecimento

Para quem gosta de damas, vários passatempos relacionados podem reforçar competências semelhantes. Jogos simples de estratégia como o “Quatro em Linha” ou o reversi desenvolvem reconhecimento de padrões e planeamento. O dominó trabalha a memória e capacidades numéricas. Até puzzles colaborativos, feitos com netos ou amigos, fortalecem atenção e paciência.

Algumas comunidades de reformados já usam tardes de jogos como parte dos seus programas de bem-estar. Uma mistura de damas, cartas e jogos de palavras transforma o treino mental num evento social, em vez de uma tarefa solitária. Quem é mais tímido pode começar por assistir a uma partida e, depois, entrar num jogo curto quando se sentir preparado.

As damas também oferecem uma ponte entre gerações. Avós podem ensinar as regras a membros mais jovens da família numa única visita. Essa transmissão de conhecimento, por pequena que seja, alimenta um sentido de propósito e continuidade. O tabuleiro torna-se um espaço partilhado onde as diferenças de idade contam menos do que a curiosidade e a tática.

Para quem tem mais de 60 anos e sente a mente a abrandar ou o mundo a encolher, esse tabuleiro quadriculado de casas claras e escuras pode ser uma ferramenta modesta e prática. Um jogo raramente muda uma vida; mas muitos jogos pequenos e ponderados, semana após semana, podem manter o cérebro mais ocupado, os dias mais estruturados e o círculo social um pouco mais próximo.

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