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O que falar constantemente de si próprio revela, segundo a análise psicológica

Quatro jovens sentados à mesa de café, olhando para um telemóvel. Um caderno e café estão sobre a mesa.

A tendência de trazer constantemente tudo para si próprio irrita muitas vezes os outros, mas também revela muito sobre a forma como uma pessoa funciona psicologicamente. Por detrás deste fluxo constante de “eu, eu mesmo e eu” estão necessidades emocionais, vulnerabilidades mais profundas e, por vezes, riscos reais para as relações sociais.

Quando falar de si passa a ser um estilo de comunicação permanente

Toda a gente fala de si - e isso é uma coisa boa. Partilhar o seu dia, uma memória ou uma emoção é essencial para se sentir ligado aos outros. O problema começa quando uma conversa se transforma sistematicamente num monólogo centrado numa única pessoa.

Os psicólogos observam que este tipo de comportamento está longe de ser trivial. Não se trata apenas de um momento de entusiasmo ou de um dia “sem filtro”. Para algumas pessoas, falar de si torna-se a sua forma padrão de comunicar.

O que causa problemas não é a auto-revelação em si, mas a incapacidade de deixar espaço para a outra pessoa na troca.

Nas conversas do dia a dia, este padrão surge rapidamente:

  • Menciona um problema no trabalho e a outra pessoa responde com “Sim, mas eu…” antes de avançar para a própria história.
  • Fala de um projeto e a conversa muda para os sucessos, falhas ou ambições dessa pessoa.
  • Partilha uma emoção, que é rapidamente substituída pela emoção dela.

Com o tempo, quem está à volta sente-se posto de lado, não ouvido, ou até usado como espectador passivo. A relação torna-se desequilibrada, quase num só sentido.

O que isto revela sobre a personalidade, segundo a psicologia

Uma necessidade escondida de validação

Muitas pessoas que centram constantemente as conversas em si próprias procuram, acima de tudo, validação. Falar dos seus feitos, dificuldades, desafios ou talentos ajuda-as a confirmar se “contam” aos olhos dos outros.

Os psicólogos associam frequentemente este comportamento a uma autoestima frágil. Quanto mais uma pessoa duvida do seu próprio valor, maior a probabilidade de se colocar em destaque - por vezes de forma insistente - para receber elogios, aprovação ou simples sinais de admiração.

Por detrás de um discurso muito centrado em si próprio existe muitas vezes o medo de não ser suficientemente interessante, suficientemente inteligente ou suficientemente bem-sucedido.

Entre o autoelogio e a falta de reconhecimento

Em alguns casos, este hábito reflete uma forma de auto-felicitação. Quando uma pessoa se sente pouco reconhecida pelo seu meio, pode relembrar repetidamente os outros dos seus feitos, reivindicar o mérito de projetos ou sublinhar o quanto “aguentou” e “lutou”.

Estas histórias repetidas funcionam como um mecanismo de auto-reforço: falar de si fortalece a sensação de existir, de ter sucesso e de estar no controlo. O problema surge quando esta necessidade se sobrepõe à escuta do outro e transforma qualquer discussão numa montra pessoal.

Narcisismo - mas não só

A psicologia também associa este comportamento a certos traços narcisistas. Nestes casos, a pessoa coloca-se no centro, considera as suas experiências mais significativas do que as dos outros e tem dificuldade em demonstrar interesse genuíno pelo que quem a rodeia está a viver.

Muitas vezes, existe em pano de fundo uma falta de empatia: a outra pessoa torna-se um público, em vez de um verdadeiro parceiro de conversa. As emoções, necessidades e limites do outro ficam para segundo plano face à necessidade de falar de si.

Sinal na conversa O que pode indicar
Interrompe frequentemente para contar a sua própria história Necessidade de reconhecimento, dificuldade em dar espaço
Redireciona todos os temas para a sua própria experiência Egocentrismo, fraca escuta ativa
Desvaloriza os problemas dos outros falando dos seus Baixa empatia, necessidade de se sentir mais forte ou mais merecedor de atenção
Gaba-se regularmente sem que lhe peçam Necessidade de validação, traços narcisistas

Causas mais profundas: insegurança, medo de rejeição e comparação constante

Insegurança que alimenta a necessidade de ocupar todo o espaço

Muitas pessoas que só falam de si não se sentem seguras nas relações. Têm medo de ser ignoradas, desvalorizadas ou substituídas. Dominar a conversa torna-se uma forma de manter controlo.

O medo de ser julgado, ridicularizado ou abandonado tem, por vezes, raízes na infância ou em experiências relacionais dolorosas. A auto-narração contínua torna-se uma forma de garantir que a atenção permanece focada nelas - como um holofote que se recusam a desligar.

Medo de rejeição, inferioridade… ou superioridade

Os psicólogos apontam também o medo de rejeição como um grande motor. A pessoa sente que, se não falar de si, vai desaparecer para segundo plano. Por isso, multiplica anedotas, confidências e opiniões detalhadas sobre a sua vida.

Este comportamento pode nascer de um complexo de inferioridade: sentir-se “menos” do que os outros leva a pessoa a compensar, realçando constantemente o que sabe, o que viveu ou o que alcançou. Paradoxalmente, um complexo de superioridade pode conduzir ao mesmo resultado - a pessoa vê-se como mais perspicaz, mais experiente ou mais legítima e, naturalmente, assume que o seu ponto de vista merece mais espaço.

O foco constante em si pode esconder tanto um sentimento de “não valho grande coisa” como de “valho mais do que os outros”. Em ambos os casos, a relação fica desequilibrada.

Efeitos nos mais próximos: exaustão emocional e afastamento silencioso

A nível relacional, este padrão raramente surge sem consequências. Os mais próximos descrevem muitas vezes fadiga emocional. Saem das conversas com a sensação de terem servido de escape, de espelho ou de palco, sem conseguirem partilhar algo sobre si.

Com o tempo, algumas pessoas reduzem as interações, evitam temas pessoais ou encurtam as conversas. A pessoa centrada em si pode viver este afastamento como uma traição, sem reconhecer a ligação com o seu próprio comportamento.

  • Os amigos tornam-se mais distantes.
  • Os colegas limitam conversas pessoais.
  • As relações amorosas perdem dinamismo por falta de escuta recíproca.

Ironicamente, esta dinâmica reforça o medo original: quanto mais rejeitada a pessoa se sente, mais pode tentar tornar-se visível falando ainda mais sobre si.

Como reconhecer este comportamento em si - e começar a corrigi-lo

Perguntas honestas para se fazer

Sem fazer qualquer teste formal, alguns sinais de alerta podem ajudar. Depois de uma conversa, pergunte a si próprio:

  • Fiz perguntas específicas à outra pessoa sobre o que ela está a viver?
  • Permiti silêncio e dei-lhe tempo para desenvolver as respostas?
  • Redirecionei a conversa para mim sempre que possível?
  • Lembro-me genuinamente do que ela partilhou comigo?

Se as duas primeiras respostas forem muitas vezes “não” e as últimas “sim”, a tendência de trazer tudo para si provavelmente está bem instalada.

Formas práticas de reequilibrar a conversa

Os psicólogos sugerem alguns hábitos simples para evitar sufocar as trocas:

  • Defina uma regra mental: por cada anedota pessoal, faça pelo menos duas perguntas à outra pessoa.
  • Pratique escuta ativa, parafraseando o que a outra pessoa acabou de dizer antes de falar de si.
  • Aceite o silêncio sem sentir a necessidade de o preencher imediatamente.
  • Repare quando interrompe e devolva conscientemente a palavra.

Reaprender a ouvir não significa apagar-se - significa, sim, partilhar verdadeiramente o espaço com a outra pessoa.

Quando o discurso centrado em si esconde um problema mais amplo

Em alguns casos, este estilo de comunicação faz parte de um padrão psicológico mais alargado: ansiedade social, dependência emocional, perturbação da personalidade narcísica ou traços borderline. O discurso autocentrado torna-se então um sintoma entre outros - dificuldade em lidar com críticas, instabilidade emocional ou relações intensas que terminam abruptamente.

Consultar um profissional pode ajudar a distinguir um simples hábito de uma estrutura psicológica mais complexa. O trabalho terapêutico pode permitir à pessoa relacionar esta necessidade constante de falar de si com experiências precoces de rejeição ou desvalorização.

Ir mais longe: empatia, exercícios práticos e riscos a longo prazo

Uma palavra surge de forma consistente em torno deste tema: empatia. Não se trata apenas de “deixar o outro falar”, mas de se importar genuinamente com o que ele sente, pensa e, por vezes, tem dificuldade em expressar. A empatia pode ser treinada como um músculo através de pequenos exercícios diários: ouvir alguém durante três minutos sem interromper, parafrasear as suas palavras ou identificar as emoções por detrás do que diz.

A longo prazo, falar apenas de si traz riscos reais: isolamento gradual, conflitos repetidos e uma reputação de ser “difícil de lidar”. A vida profissional também pode sofrer - um colaborador que monopoliza reuniões ou um gestor focado apenas no seu próprio desempenho acaba muitas vezes por ser excluído de decisões-chave.

Em contrapartida, aprender a reequilibrar as conversas traz benefícios tangíveis: relações mais estáveis, maior confiança por parte dos outros, melhor cooperação no trabalho. E, talvez o mais importante, um alívio muitas vezes subestimado - a liberdade de já não precisar de provar constantemente o seu valor através das palavras.

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